Barraca

Fazer um filme é fazer o impossível através do possível. No começo a gente deixa o pensamento voar, imaginar o que gostaríamos de ver, ligar pontos improváveis. Depois é colocar o pé no chão e pensar em como realizar. Aí, aquele projeto megalomaníaco é obrigado a se adaptar à realidade, sem perder a essência.

Num desses devaneios criativos, pensei que seria divertido fazer uma animação com graffitis de verdade dançando um bolero dos anos 50 pela cidade. A realidade: em uma animação, a 24 quadros por segundo, seriam necessários 7200 graffitis em um filme de 5 minutos. Impossível. Aí comecei a trabalhar a ideia, torná-la realizável. Utilizar técnicas de economia de frames de animação, misturar estêncil e lambe-lambe aos graffitis, pixalation da cidade… Quantos dias de produção seriam necessários? Qual o tamanho da equipe? Pra animação ficar precisa, vou planejá-la no computador e projetar os frames antes de grafitar. Projetar? Precisaremos de uma barraca pra barrar a luz do sol… E agora, a essência ainda tá lá? Dá pra fazer? Dá sim, e vai dar um trabalhão. Tomara que o pessoal tope. E toparam!

O que é mais engraçado é que nos primeiros dias de produção já dá pra perceber que algumas coisas que seriam uma mão na roda, não funcionam na vida real. E que algumas coisas daquela etapa pé-no-chão acabaram se revelando tão irreais quanto sua ideia inicial.

No primeiro dia, lá no CEU Caminho do Mar, o mais difícil foi segurar as barracas. Muito vento. Muita gente se esforçando o dia inteiro pra conseguir riscar a parede e não sair voando. Achamos desde o começo que o mais demorado e trabalhoso seria fazer os graffitis. Mas para o nosso espanto gastamos o triplo de energia segurando as barracas. Os grafiteiros teriam terminado em menos tempo se não tivessem que nos esperar riscar a animação.

Já na escola Costa Manso não havia recuo suficiente na calçada para caber a barraca. Por isso fomos pra lá com o projetor à noite. Riscamos 18 frames em 4 horas, praticamente a metade do tempo. Terminamos o trabalho bem menos cansados. No dia seguinte o graffiti também rolou mais rápido. Entre 10 da manhã e 13h30 já estava tudo pronto!!

Na Lapa, muro da CPTM, voltamos ao formato inicial: riscar e grafitar no mesmo dia. Se não havia vento, o sol bem mais forte nos impediu de enxergar direito o desenho do projetor. A barraca não escurecia o suficiente. Fora que eu queria aproveitar o cenário, grafitar nas escadas, passarela, lugares tortos e era impossível posicionar a barraca em certos lugares. A meta era riscar entre 20 e 40 frames. Até às 15h estávamos no quinto, sexto desenho, completamente exaustos. Os grafiteiros esperando. Hora de repensar.

Nesse mesmo dia, pedimos que a equipe de graffiti guardasse energia e voltasse no dia seguinte, domingo. Guardamos as barracas e esperamos o sol baixar. Riscamos no total 35 desenhos, que foram grafitados no dia seguinte em 3, 4 horas. Com isso ficou bem claro que o caminho tinha que ser um pouco diferente. Esquecemos as barracas e gastamos menos energia e menos tempo.

Pra fazer um filme é preciso se adaptar o tempo todo. Sabe a barraca descartada? Sentimos saudade dela quando nos vimos ensopados, segurando o guarda chuva em cima do equipamento no dia que voltamos pra fotografar.

One Comment

  1. Maristela
    Posted 09 de julho de 2012 at 10:31 hrs. | Permalink

    Sempre que estou trabalhando na produção de um filme eu penso nas famosas três fases: pré-produção, produção e pós e de que modo o filme vai se modificando em cada uma delas. Fico sempre com a certeza de que a gente descobre o filme no processo e que é preciso estarmos abertos para as boas surpresas e também para as dificuldades que surgem. Esta equipe mostrou mais uma vez o quanto acredita no trabalho. É um prazer trabalhar com vocês. Tenho certeza que o resultado será além do planejado no início. Vamo simbora! São Paulo precisa dançar!

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