Pré-lançamento na Cinemateca

O Graffiti Dança vai passar dentro da programação do CURTA CINEMATECA ESPECIAL. Sexta, 26 de abril de 2013, 20h30

CINEMATECA BRASILEIRA – Largo Senador Raul Cardoso, 207 – www.cinemateca.gov.br

Primeira exibição do Graffiti Dança

Graffiti Dança será exibido no MIS
Quinta, 21 de Março de 2013, 20h
Sessão Cine MIS
Auditório MIS, 173 Lugares
Ingresso gratuito (Sujeito à lotação da sala)
Retirada de ingressos com uma hora de antecedência.

Graffiti, Mural e Pixação

1990. Miss Browne, oitava série. A professora de educação artística resolveu dar um tempo dos trabalhos placebo e propôs uma atividade mais condizente com a realidade da turma: “cada um vai fazer um estêncil e vamos grafitar o muro da escola”. Eu, como um bom nerd, encontrei na revista Ação Games o desenho que iria parar no muro: um Mario Bros de 1 metro e meio de altura. Meu vô, quando ficou sabendo, ficou bravo com a minha professora: “Que absurdo! A própria escola ensinando a pixar!”.

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Não sei se veio de muito antes, mas na época reparei que os jornais começaram a diferenciar pixação de graffiti. Pixação, vandalismo. Graffiti, arte. Eu passava no túnel da Paulista fascinado com as cores e formas que transformaram um lugar inóspito em um ambiente mais humano. Apesar de algumas intervenções governamentais não muito felizes naquele trecho em algumas ocasiões tenho um certo orgulho de uma cidade que aprendeu a tratar aquele graffiti do Rui Amaral como um monumento. O efêmero transformado em uma característica fixa da cidade, embora muitas vezes a gente nem repare, quer dizer muita coisa.

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2006. Com o meu terceiro curta, Perdido no Meio do Nada, feito com meu primo Fabio Mazaia, é que descobri que animação era o que eu queria fazer. Na época fazia um curso de iluminação pra cinema e comecei a me apresentar como “animador” pra todo mundo. As pessoas precisam saber o que você está disposto a fazer, senão a oportunidade pode passar por você sem te cogitar, por puro desconhecimento. Deu certo. Um colega de curso, Jeronimo, disse que estava com outros amigos formando um grupo pra fazer animação com graffiti. Seus amigos eram grafiteiros. Faltava o animador. Estava surgindo aí o Graffiti com Pipoca.

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Muita gente pode não entender, mas gosto de ser um investigador de culturas e pensamentos. Gosto de viagens por isso, sejam elas pro interior ou pra outro continente. Assim como gosto de conversar com pessoas que aceitam a proposta de tocar em temas espinhudos civilizadamente. Entrar no mundo do graffiti me apresentou a uma nova visão. Desde quando eu conheci os grafiteiros Bruno Perê e Agner Rebouças muitas foram as vezes que falamos sobre o tema “graffiti-pixação”. Aí vem o Perê e me diz que graffiti e pixação não são tão diferentes entre si. Cada um é um recurso diferente, mas o que os dois tem que ter em comum é a contestação, principalmente no que diz respeito à ausência de autorização do dono do muro. Eu achei isso bem curioso. Quer dizer que a versão que contam no jornal não é necessariamente o que pensam os próprios graffiteiros? Quer dizer que não necessariamente há a antítese “artista” x “vândalo”?

Só que para alguns grafiteiros o fato do colega ter tido uma autorização para pintar desvaloriza o graffiti, até o próprio grafiteiro. Perê não chega a tanto: acredita que uma autorização para grafitar um muro descaracteriza o graffiti, mas apenas chama o trabalho por outro nome: “mural”. É uma forma de mudar o filtro. Ele filtra pela atitude na hora em que o trabalho está sendo feito.

Eu ainda prefiro separar grafiteiros e pichadores pela motivação de cada um. Eu considero a motivação do grafiteiro muito mais “nobre”, voltada à arte, à contestação e à mobilização das pessoas e a motivação do pixador mais voltada à vontade adolescente de chamar atenção da turma. O Agner me acrescentou uma pontinha de dúvida nesse meu filtro quando me lembrou que o artista também pode querer chamar atenção e ser aceito por uma “turma” do mesmo jeito que o adolescente. E quanto mais a gente aprende mais a gente vê que a convicção é uma bobagem.

Por outro lado, tem grafiteiro que considera até o estêncil como um trabalho menor. Mas o Perê prova que o estêncil pode ser um recurso importantíssimo pra sua mensagem. O Agner também considera o graffiti uma das muitas formas de expressão que ele pode se valer pra passar uma mensagem, mas não a única. Aliás, isso é uma coisa que me faz admirar a todos no Graffiti com Pipoca. Todos tem uma visão muito ampla, uma necessidade artística que ultrapassa qualquer fronteira, nomenclatura e convenção. Tenho muita sorte de fazer parte desse grupo e poder ter contado com essas pessoas na realização do Graffiti Dança.

Depois de toda essa definição alguém pode dizer que pra fazer o Graffiti Dança a gente não fez graffiti por ter tido autorizações nos muros. Em minha defesa tenho a dizer que o Graffiti Dança é um filme de ficção que utilizou estênceis e murais para homenagear o graffiti e principalmente a aceitação de pensamentos diferentes. Coisas que o Graffiti com Pipoca tem feito há muito tempo.

A música do Graffiti Dança

Eu tinha uns sete anos, meu tio uns 20. Ele tinha uma coleção enorme de vinis. Todos de rock. Ouvir Beatles e Led Zeppelin me faz lembrar dos sábados da minha infância. Umas 10 horas da manhã. Meu vô entrava no quarto a cada tantos minutos vociferando que já tinha passado a hora de levantar. Eu ficava uma hora naquele estado entre acordado e dormindo. No outro quarto meu tio colocava algum disco clássico de rock bem alto. Mais do que Balão Mágico ou Menudo, os Rolling Stones me fazem lembrar minha infância. E eu criei anticorpos pra quem tenta me acordar. Hoje eu não consigo escutar o despertador.

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Pra mim, um carro é uma sala de ouvir música que se desloca no espaço (No caso de São Paulo, se desloca muito lentamente). Teve uma época que eu levava minha vó ao médico periodicamente. Era um lugar meio longe de casa, então dava pra conversar um pouco e ouvirmos alguma coisa juntos. Nessa época comprei alguns CDs com músicas dos anos 40 e 50. Conheci Dolores Duran e Nelson Gonçalves. A vó Carmelita é uma pessoa bem eclética. Curtiu bailes com boleros e sambas canções na juventude, mas não parou no tempo. Virou fã de Jair Rodrigues, Clara Nunes e do cantor Daniel, o que, nesse caso, já é demais pra mim. Assiste o programa da Inezita Barroso toda semana e adora ouvir peças de piano. Coloquei Tom Zé no CD do carro:

Tô bem debaixo pra poder subir
Tô bem de cima pra poder cair
Tô dividindo pra poder sobrar
Desperdiçando pra poder faltar

Ela podia achar estranho, mas deu risada e adorou.

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Minha mãe me ensinou a prestar atenção nas letras. Caetano e Chico, claro. Mas também conheci com ela e com meu padrasto, por exemplo, “Conversa de Botequim”, do Noel. E Adoniran Barbosa. Ela aprendeu a lição direitinho com a minha vó: de Martinho da Vila a Dorival Caymmi, música cubana, Beatles e Elis Regina. Mas o legal é que se tiver uma música do Michel Teló que ela gostar, ela não vai ter dúvida em se divertir no casamento numa boa. Eu já sou muito mais mala. Em alguns casos não bato nem o pé, em protesto.

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Meu pai tinha o anti-restaurante mais legal do mundo: a Peña Don Fernando. Anti-restaurante, segundo ele mesmo, porque o chão de terra batido e o forno a lenha deixavam tudo num clima tão informal que não combinava com o protocolo de um restaurante normal. Lá tinha música ao vivo. Música latino-americana. Eu escolhia uma cadeira na beira do palco e ficava prestando atenção. Tinha muita música boa. Uma vez meu pai subiu no palco pra cantar um tango. Alguém acompanhando ao violão. Ou ele estava improvisando ou lembrava muito mal a letra, porque a métrica não encaixava, nada afinava e o cara do violão ficava perdido tentando correr atrás. Só que a atuação dele era impagável. Era engraçado ver a cara das pessoas sem saber se ele estava brincando ou se levando a sério. Às vezes até eu fico na dúvida, mas tenho quase certeza de que ele estava brincando. Hoje ele se cansou um pouco, mas na época ele era um show-man, principalmente fora do palco.

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A música esperada em um filme sobre graffitis seria, obviamente, relacionada ao movimento hip-hop. Como já falei por aqui, os nossos graffitis vão dançar pela cidade um bolero dos anos 40/50. A brincadeira é ver a estética urbana e moderna dos graffitis dançando de rosto colado um tipo de música que foi sucesso há muitos anos no Brasil, quando o movimento hip-hop nem sonhava nascer. Comecei a composição no começo do ano, mas ainda não estava boa. Mostrei pro Arthur e começamos a pensar a trilha. Como era uma composição nova tentando trazer o clima da época, nosso maior medo era soar como uma caricatura. O bolero – especialmente – ainda hoje é usado em comerciais de TV para ilustrar qualquer coisa cafona, ultrapassada, que não combine com a felicidade embalada no produto que se quer vender.

Estudamos muito. O meu estudo foi mais intuitivo, o tipo de som que a canção deveria ter, como a melodia deveria soar. O Arthur estudou os instrumentos usados e os tipos de arranjo que se fazia na época. Pesquisou vários intérpretes diferentes e conversou com amigos da faculdade de música, a fim de consolidar uma linha de ação. Em outubro, com o fim das gravações nas ruas, tivemos que começar a terminar a trilha. Num final de semana, mudei algumas partes da melodia que ainda me incomodavam. Definimos a harmonia e o tom. Em poucos dias o Arthur terminou de escrever o arranjo para Flauta, Clarinete, Clarone e Violinos. Mudei os últimos versos que não gostava e gravei uma guia para o Renato colocar a voz definitiva no dia seguinte. Diogo colocou as madeiras. Nikolay os violinos. Agora estamos com quase tudo gravado, já com o alívio de saber que a música está cumprindo com o seu objetivo de não parecer jocosa, de fazer uma verdadeira homenagem à epoca.

A educação musical que eu recebi da minha família é uma das coisas mais legais que eu podia ganhar, e ela foi essencial pra que esse projeto fosse concebido e realizado neste momento.

Sincretos na Av. Brigadeiro Faria Lima

Na Faria Lima, fizemos 10 graffitis do ciclo de dança Sincretos. É um muro na esquina com a rua Licio Nogueira.

10 frames Sincretos.